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30 de janeiro de 2015

Oi, gente! Já leram sobre o reality show norueguês que mostra aqueles Blogueiros no Camboja?

Dia desses eu comentei com amigos que achava meio absurdo efetuar compras pelo Ali Express. Meu ponto era: será que as pessoas não percebem que quando pagam muito barato por uma peça de roupa existe alguma coisa errada na cadeia de produção? Alguém está sendo explorado… Alguém pode estar sendo escravizado.

Segunda-feira um amigo me mandou o link do Update or Die que conta sobre o programa Sweatshop – dead cheap fashion do Aftenposten TV, o maior veículo de comunicação da Noruega, que enviou 3 blogueiros de moda para o Camboja por 30 dias. Outras duas pessoas me mandaram links de outros sites que reportaram o mesmo assunto.

Não posso silenciar a respeito.

A Noruega, onde os três blogueiros vivem, ocupa – pelo sexto ano consecutivo – o posto de país mais próspero do mundo no Legatum Prosperity Index. O Camboja ocupa a 112ª posição do mesmo ranking.

Quando eu fechei o escritório para trabalhar em uma confecção aqui de Caxias do Sul eu entendi quanto custa fazer uma roupa. Lembro de ver a dona da marca dizendo que é muito complicado competir preço com confecções onde os trabalhadores dormem ao lado das máquinas de costura. Lembro, ainda, de vê-la receber a seguinte “brilhante” sugestão: “Por quê você não compra esses casacos que vêm da China e coloca a sua etiqueta?“. E lembro de ela não se render e persistir no seu negócio escolhendo o zíper, o botão, a lã e a linha para costurar os seus casacos dentro da sua confecção.

Essa experiência mudou a minha vida. Mudou o meu olhar sobre a moda e mudou as minhas prioridades de consumo.

Hoje eu acompanho de perto muita gente fazendo moda. Eu assisto os detalhes do corte de uma peça. Os acertos de modelagem, os cuidados com o tecido. Existem pessoas envolvidas. Gente com família, necessidades, desejos. Gente que pensa na frente para entender o que nós vamos querer usar daqui a seis meses. Não tem glamour. Tem trabalho.

Na indústria da moda em menos de seis meses tem que criar, produzir e entregar. É corrido e, pasmem, este ritmo é lento se comparado às grandes redes de fast fashion onde entrega-se coleções a cada três semanas.

Quem cria sofre pressão. Quem costura, tinge, corta, borda e transporta também. É uma competição eterna, interna e externa. É insalubre. É doente.

E pra quê? Pra quem? Pra nós.

blogueiros_camboja_boy

Nos primeiros episódios do reality show norueguês a blogueira Anniken Jorgensen diz que “há trabalhos piores” e que “ao menos eles têm um emprego”. Ela ainda não havia entrado em contato com a realidade dos trabalhadores cambojanos.

Ao longo do reality show ela percebe que uma de suas peças de roupa equivale ao salário anual de uma daquelas trabalhadoras que ficam 14 horas fazendo exatamente a mesma coisa sem parar. Muitas delas desmaiam ou entram em colapso por falta de comida e água.

Ela confessa que não seria capaz de suportar aquela realidade. Ela se choca com os relatos que ouve.

Anniken se desespera. E chora.

blogueiros_camboja_1

A blogueira declarou em entrevista recente ao portal G1 que se sente envergonhada pelas declarações que deu no início das gravações da série… Eu também me sentiria.

blogueiros_camboja_2

Agora abram seus guarda-roupas. Quanta gente tem ali dentro?

Mudanças radicais de consumo nunca são saudáveis e tampouco possíveis. Mas podemos pensar um pouco mais na cadeia produtiva e tentar, ao menos quando se trata de moda, ser mais conscientes porque já faz tempo que as condições sub-humanas de trabalho neste setor vêm sendo escancaradas.

blogueiros_camboja_roupa

Ando preferindo quem tem pouco produto, mas com acabamento impecável. Quem tricota uma blusa e escolhe com carinho o fio. Quem tinge o tecido com chá. Quero roupas que fiquem comigo por mais tempo. Quero comprar menos. Quero usar mais.

Isso vai erradicar a escravidão no mundo? Não. Vai melhorar as condições de trabalho e os salários no Camboja? Também não. Mas eu não quero carregar essa culpa só para ter uma roupa nova.

A rede de fast fashion H&M foi citada no programa e, quando procurada para falar a respeito, não quis dar entrevista. Eles divulgaram uma nota, que é reproduzida no final do Ep. 5 da série e que diz o seguinte:

“A H&M é consciente de que os salários em países como Camboja são demasiados baixos. Por isso, a empresa lançou em 2013, convertendo-se na primeira empresa de moda a fazê-lo, um plano concreto para conseguir um salário digno e razoável através de nossos provedores.

As medidas incluem fomentar negociações entre empresários e trabalhadores para facilitar a organização sindical assim como a capacitação em matéria de direitos.

Durante as gravações, o programa não visitou nenhum dos nossos fornecedores e não falou sobre os nossos programas de sustentabilidade e há comentários que dão uma imagem equivocada em torno das condições e salários de nossos provedores”.

Bullshit, H&M!

O diretor da série, Joakin Kleven (que tem apenas 22 anos), em entrevista ao G1 disse “Não conseguimos entrar em nenhuma fábrica, a não ser aquela em que os jovens trabalham no terceiro episódio. Em outro episódio, estávamos do lado de fora de uma só fazendo algumas imagens e após dez minutos o dono apareceu e mandou desligarmos a câmera. Quando você ouve algo assim você começa a pensar sobre o que acontece do lado de dentro. E é assustador.”

Vale a pena ler essa reportagem da Revista Forum Semanal de setembro passado sobre a situação dos trabalhadores no Camboja. Ela foi publicada cerca de dois meses antes do lançamento da série norueguesa.

Não podemos mais fechar os olhos, né?

Beijos!

Os episódios da série Sweatshop – Deadly Fashion estão disponíveis online eu super aconselho assistir. 

Obrigada à Carla Carlin, Lulu Alberti, Gabi Basso, Carlinhos Bacchi, Rafa Tomazzoni, Anelise Delazzeri, Simone Franco, Izabel Peteffi Basso, Beatris Brustolin, Anderson Tonin e outros que eu certamente esqueci de citar por dividirem suas experiências comigo, por me mostrarem quanto custa para fazer uma peça de roupa e por acreditarem em slow fashion e em uma moda sustentável. E em dignidade!

Obrigada Felipe Guelfi, Pri Rê e Lulu Alberti por terem me enviado os links das reportagens sobre o reality show.

Escrevi ontem mas já tem dois UPDATES!

1 – Obrigada, também, ao meu pai por ter me mostrado ao longo da vida a importância da empatia e da coerência nas relações de trabalho. Em um discurso para profissionais de recursos humanos ele disse: “Vocês serão sábios se forem simples.

2 – A jornalista Roberta Mattana dedicou sua coluna de ontem ao mesmo tema.

Coluna_robertamattana

UPDATE 3 : vale ler uma matéria sobre a campanha lançada no Dia da Revolução Fashion, onde máquinas automáticas vendiam roupas muito baratas e ninguém comprou. Lê aqui.

 

Dani Conte
Dani Conte
Escreve sobre moda, beleza e tendências, mas também dá seus pitacos em outros assuntos. Revisa demonicamente todos os conteúdos do blog.

7 Comentários

  1. […] Quer saber como eu fui parar lá? Tudo começou neste post AQUI! […]

  2. Muito complicado o assunto, pois temos esta gana por buscar o mais barato porém com qualidade e com design. Acompanho o trabalho manual de bordadeiras e costureiras assim como todo custo/hora de uma empresa que prima pela qualidade, não só no produto final, mas também tenta humanizar o processo de produção junto à equipe. O resultado final é um produto com valores mais altos, porém a garantia que não estamos comprando a escravidão e a desonestidade. Precisamos abrir os olhos para tudo o que estamos comprando ao escolher uma roupa. Obrigado por por o dedo na ferida, Dani.

  3. Cristina Conte disse:

    Jornalístico teu texto. Mega orgulhosa. Nada surpresa com a tua competência no uso das palavras para abordar um tema tão delicado e importante. Parabéns.

  4. Ane disse:

    Ótimo post, super pertinente.
    Se todos soubessem o trabalho de desenvolvimento de uma peça, desde a sua criação, até estar em loja versus o preço, tenho certeza que muita gente se questionaria, como é possível?!?! Que bom que iniciativas como a desta série alertam sobre a exploração de pessoas que não tem outra opção…

  5. Vanessa Koza da Silva disse:

    Sem palavras… Tu é ótima, mas esse foi teu melhor post ever!!!

  6. Joana Maria Toigo Conte disse:

    Excelente texto. Espero que através dos compartilhamentos possa despertar interesse atitude em algumas pessoas. Já é um passo. Abraco carinhoso.

  7. Parabens post, Dani! Muito bem apanhado e escrito. bj

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