Dr. Martens: a história do coturno que virou ícone de design e de moda

Yves e o Smoking
18 de março de 2024
Exibir tudo

Poucas peças de vestuário conseguem atravessar oitenta anos, dezenas de subculturas e todas as estações de moda sem perder relevância. A Dr. Martens é uma delas!

E o mais surpreendente é que ela nasceu de um problema ortopédico, que foi resolvido por um médico e em um contexto que não tem absolutamente nada a ver com a moda. 

Dani ContA, aqui, essa linha do tempo: da Alemanha do pós-guerra às passarelas internacionais, passando pelo desenvolvimento técnico do solado, pela criação dos códigos visuais que definem a marca até hoje, e pelo reconhecimento da bota como um dos maiores ícones do design britânico. Vem comigo

Uma bota nascida de uma lesão, não de um desenho

A história começa em 1945, em Munique, no fim da Segunda Guerra Mundial. Klaus Märtens era um jovem médico de 25 anos, servindo no exército alemão. Durante esse período, ele machucou o tornozelo esquiando e descobriu, na pele, um problema que hoje pareceria banal: as botas padrão do exército eram rígidas e desconfortáveis demais para um pé em recuperação.

Ao invés de trocar de calçado, Märtens adaptou a própria bota, substituindo o solado tradicional de couro duro por um solado mais macio, feito com câmaras de ar aproveitadas de borracha de pneus. Era uma inversão completa da lógica até então usada na fabricação de calçados: em vez de rigidez, amortecimento! 

Com a Alemanha destruída e os materiais escassos no pós-guerra, Märtens comprou couro de um sapateiro e com uma agulha costurou o primeiro protótipo em uma forma de sapato improvisada. O resultado não poderia ter sido mais rudimentar, porém, inegavelmente revolucionário.

Mas a gente sabe que uma boa ideia nem sempre é um bom negocio, né? Foi quando Märtens reencontrou um antigo colega de faculdade, o engenheiro mecânico Herbert Funck, que o projeto ganhou uma direção comercial. Funck viu potencial no design e os dois se tornaram sócios, dando início ao que viria a se tornar, décadas depois, uma das marcas de calçado mais reconhecíveis do mundo.

Eles iniciaram a produção formal do calçado em 1947 com borracha descartada e material militar em desuso para desenvolver a técnica de unir cabedal e sola criando pequenas bolsas de ar internas. Era essa engenharia rudimentar que dava à bota o efeito de “solado saltitante” que se tornaria, décadas mais tarde, parte do slogan oficial da marca.

 

O público inicial, porém, surpreende quem conhece a Dr. Martens apenas pela fase punk/skinhead. Não eram operários, nem soldados. Cerca de 80% das vendas na primeira década foram para mulheres com mais de 40 anos que passavam longas horas em pé cuidando dos afazeres de casa e encontraram, naquele solado amortecido, um alívio real para dores nos pés. Ou seja: antes de ser símbolo de contracultura, a Dr. Martens foi, essencialmente, um calçado ortopédico bem-sucedido comercialmente, vendido para um público conservador e prático.

1959: a Inglaterra compra os direitos e cria os códigos da marca

O ponto de virada definitivo aconteceu em 1959 quando Bill Griggs, herdeiro de uma fábrica de botas inglesa fundada em 1901, se deparou com o anúncio da sola alemã amortecida a ar. Interessado na tecnologia, ele negociou uma licença de fabricação exclusiva para o Reino Unido.

Nasceram, então, os elementos visuais que hoje qualquer pessoa reconhece como “a cara” da Dr. Martens. E o mais interessante é que cada um deles surgiu como solução técnica, e só depois viraram identidade de marca.

O solado e o registro “AirWair”. A tecnologia de amortecimento a ar foi batizada de AirWair, e o desenho da sola foi refeito em PVC, que é um material resistente a óleo e a ácido (isso vem, inclusive, escrito na caixa da bota!), pensado para o público inicial de operários, carteiros e trabalhadores de fábrica. O processo de fabricação explica a aparência da bota até hoje: um debrum de PVC é costurado ao cabedal e, em seguida, a sola de PVC é fundida a esse debrum sob temperatura extremamente alta, formando uma peça única e muito resistente.

O acabamento lateral estriado. Este é um dos detalhes que eu mais gosto na estética da bota, e que eu adorei ainda mais quando entendi o motivo! Durante a fusão a quente entre o debrum e a sola, sobra excesso de material derretido nas laterais. Ao invés de simplesmente aparar essa sobra, eles a lixam com uma ferramenta específica, criando os sulcos característicos que aparecem na lateral do solado. Ou seja: aquele relevo estriado que hoje é copiado por marcas de coturno no mundo inteiro não foi uma escolha estética, ele nasceu de uma solução prática para lidar com o excesso de material da fusão.

A costura amarela contrastante. Griggs decidiu unir cabedal e sola com um ponto de costura amarelo bem visível, formando um contraste de cor que, décadas depois, se tornaria um dos elementos mais protegidos e replicados da identidade visual da marca.

O cabedal arredondado. O bico da bota foi redesenhado com uma forma mais arredondada do que o modelo alemão original, o que deu à silhueta aquele volume robusto que a gente reconhece à distância.

O puxador do calcanhar. Um puxador preto e amarelo, colocado na parte de trás da bota, trazendo o nome da marca e o slogan “With Bouncing Soles” (“com solas saltitantes”), supostamente escrito à mão pelo próprio Bill Griggs.

Em 1º de abril de 1960, esses elementos se uniram no primeiro modelo oficial: o 1460, uma bota de oito ilhoses em couro liso cor de vinho, fabricada na fábrica da R. Griggs Group em Northamptonshire. Inclusive, parte da produção continua acontecendo naquela região. Ah! e o nome do modelo não é aleatório, viu? Refere-se, isso sim, à data de lançamento, 1º de abril (1/4) de 1960.

De bota de trabalho a uniforme de contracultura

Bom, agora que eu contei sobre o surgimento do produto e a transformação dele em uma marca, vamos falar do que a gente mais ama: a caminhada da Dr. Martens na moda!

Nos primeiros anos, o público-alvo era exatamente o que se esperaria de uma bota resistente a óleo e desenhada para durar: carteiros, policiais, fazendeiros e operários de chão de fábrica, que precisavam de conforto em jornadas longas e resistência em ambientes agressivos.

Mas, na década de 1960,  quando o Reino Unido vivia o ápice da efervescência cultural, a Dr. Martens foi rapidamente adotada por movimentos jovens em busca de símbolos de identidade fora do mainstream. Ainda no fim dos anos 1960, os skinheads passaram a usar o modelo como parte de seu visual. Ao longo dos anos 1970, o punk rock consolidou a bota como uniforme de contestação social, afinal, um calçado de trabalhador, pesado e sem glamour funcionaria perfeitamente como símbolo de recusa às convenções.

Nos anos 1980, houve um movimento pouco falado, mas relevante: o crescimento das vendas de números masculinos menores indicava que mulheres também estavam adotando o estilo, o que levou a marca a lançar, formalmente, linhas femininas de coturnos e botas. Já nos anos 1990, foi o grunge quem levou a Dr. Martens a milhões de novos consumidores fora do Reino Unido, consolidando a marca internacionalmente. Foi também nessa década que a empresa abriu suas primeiras lojas próprias.

A partir dos anos 2000, a marca expandiu o catálogo para sapatos, sandálias e botas de bico de aço, todas mantendo a mesma base tecnológica do solado AirWair. Comercialmente, nem tudo eram flores, uma vez que a expansão quase levou a marca à falência.

A recuperação veio na década seguinte e em 2012, a Dr. Martens era a oitava empresa britânica de crescimento mais rápido. Em 2013, a gestora de private equity Permira adquiriu o grupo Griggs por 300 milhões de libras, e a marca segue hoje listada na Bolsa de Valores de Londres, como parte do índice FTSE 250, um índice criado a partir das 250 maiores empresas listadas na Bolsa, e considerado o indicador mais fiel à economia doméstica do Reino Unido.

Ícone de design britânico

Em 2006, o modelo 1460 foi eleito um dos ícones do design britânico numa votação pública, ao lado de outro símbolo nacional: o Mini Cooper. O reconhecimento confirma algo raro no design: um produto criado para resolver um problema funcional específico (conforto ortopédico) se manteve por mais de sessenta anos praticamente inalterado em sua construção, ao mesmo tempo em que absorveu significados culturais completamente diferentes. Tudo isso sem que o objeto físico precisasse mudar.

Hoje, mais da metade da receita da empresa ainda vem do modelo 1460 original e de seu par mais próximo, o sapato 1461, lançado em 1º de abril de 1961.

Por que a Dr. Martens virou referência para todo coturno do mundo

O 1460 estabeleceu um vocabulário visual que o mercado inteiro de coturnos passou a adotar como referência estética, mesmo em marcas que não têm nenhuma relação histórica com a empresa original:

  • O solado grosso e tratorado tornou-se padrão estético em botas de marcas completamente diferentes, mesmo quando a função de resistência a óleo e ácido não é sequer necessária.
  • A costura contrastante entre sola e cabedal, um recurso originalmente decorativo-funcional da Dr. Martens, aparece hoje em coturnos de todas as maarcas, lo luxo ao fast fashion.
  • A silhueta robusta com bico arredondado se repete à exaustão em coleções de streetwear, moda urbana e até alta-costura.
  • O acabamento lateral estriado virou um elemento de design replicado mesmo em solados que não passam pelo mesmo processo de fusão a quente.

Mais do que isso, a Dr. Martens consolidou um conceito que se tornaria central para boa parte da moda contemporânea: a transformação de um calçado utilitário, pensado para durar e resistir, em símbolo de identidade e pertencimento. Sem essa lógica cultural testada primeiro por operários, depois por subculturas jovens e finalmente absorvida pela moda de passarela, boa parte da categoria “coturno” como estética de moda simplesmente não existiria da forma como a conhecemos hoje.

Conclusão

A trajetória da Dr. Martens é, ao mesmo tempo, uma história de engenharia acidental e de reapropriação cultural. Nasceu do desconforto de um tornozelo machucado, cresceu vendendo conforto para mulheres 40+, foi reformulada por fabricantes ingleses que criaram, sem saber, uma linguagem visual que se tornaria referência global, e terminou reconhecida oficialmente como ícone de design ao lado de um dos carros mais emblemáticos da história britânica.

Poucos produtos de moda conseguem reunir, ao mesmo tempo, uma história técnica tão concreta e um significado cultural tão amplo. A Dr. Martens é um lembrete de que o verdadeiro design, por mais que venha a encantar pela estética, depende invariavelmente da função para a qual foi criado para perdurar!

Gostou de saber? 

Beijos e até o próximo post!

Dani Conte
Dani Conte
Escreve sobre moda, beleza e tendências, mas também dá seus pitacos em outros assuntos. Revisa demonicamente todos os conteúdos do blog.

Os comentários estão encerrados.