O segredo do relacionamento pleno e feliz

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Peguei vcs pelo título né? Sinto decepcionar mas não creio que exista “o segredo do relacionamento ou casamento pleno e feliz”. Aliás, nas minhas contas não existe sequer relacionamento pleno. Isso é uma lenda que nos contaram na infância como tantas outras. O que pode ser um diferencial entre pessoas que conseguem viver juntas e satisfeitas por muito tempo e aquelas com dificuldades de construir uma relação duradoura, poderia ser resumido em um único conceito: auto-conhecimento.

Percebo que nosso moderno mundo parece estar repleto de pessoas desemparelhadas e que, embora desejem muito encontrar um par, frustam-se sucessivamente em relacionamentos que mal começam e já terminam, algumas vezes de maneira trágica ou traumática. Vejo desencontros sucessivos em todas as idades, porém, aos mais maduros, pesam as cobranças ingratas do tempo que se esvai enquanto o amor não vem.

Observo em quase todos os solteiros e angustiados uma característica comum: parecem não saber o que querem de um relacionamento. Geralmente são capazes de descrever qualidades e atributos que esperam encontrar no outro, mas quase nunca conseguem definir como gostariam que fosse a relação com esse outro.

Estabelecer parâmetros sobre a forma que se pretende levar a vida a dois é o início dessa construção, é o projeto dela. Mesmo antes da existência de um possível pretendente é necessário fazer um esboço daquilo que se almeja ao dividir a vida com alguém. E este é o cerne da questão. Não somos treinados para pensar em formas de relacionamentos amorosos. Somos convencidos, desde a infância, que só existe uma forma de casamento, ou seja aquela que já experimentaram nossos bisavós e avós e que repetiram a maioria dos casais da geração de nossos pais.

Mas, hoje, muitas coisas fazemos de uma forma diferente do que fizeram nossos bisavós. A tecnologia nos trouxe infinitas possiblidades que transformaram irrevogavelmente nossas sinapses, nossos desejos e nossas necessidades. Não somos mais os humanos de outrora e portanto não nos enquadramos mais nos conceitos de outrora. Como iríamos nos satisfazer com as regras dos relacionamentos daquele tempo se hoje as redes sociais introduziram a convivência digital com amigos queridos que estão em outra parte do mundo e aproximaram casais que vivem há dezenas de fusos horários de distância. Tudo mudou e por certo mudamos também. Por certo que o tradicioanl casório haveria de não se enquadrar mais em nossa mente eletronicamente adulterada.

Somos humanos físicos e humanos virtuais simultaneamente e estamos mergulhados num universo infinito de possibilidades, o que deixa ainda mais difícil escolher quem queremos ser e de que forma queremos dividir a vida com outra pessoa. Será que é essa a razão de tantos desencontrados afetivamente?

Não sei. O que eu sei é que buscar repetir o modelo de casamento dos pais pode não trazer a tão esperada recompensa amorosa, pois por óbvio, o mundo mudou e aquele modelo pode estar desatualizado para  maioria de nós. Isso pode justicar o celibato involuntário do qual alguns de nossos amigos tanto se lamentam.

Mas e o que fazer se a única forma de casamento que se teve notícia é aquela  em que papai e mamãe dividem a mesma cama, o mesmo armário e o mesmo banheiro por toda uma vida? Eles estão sempre juntos em todos os momentos, têm os mesmos amigos e os mesmos gostos; conta conjunta; mamãe cozinha e papai controla a tv; mamãe compra e papai economiza; papai não deixa e mamãe dá um jeitinho; papai ganha mais e trabalha mais e mamãe ganha menos, trabalha menos mas cuida da casa; mamãe é fiel e papai nem tanto mas é homem e homem pode; papai vai pescar e mamãe vai às compras para compensar; papai bebe com os amigos do futebol e mamãe assiste a novela…

Esse modelo é o que VOCÊ é? Então porque insistir na busca por algo que não agrega? E o que agregaria?

Esses são apenas padrões e não necessariamente fazem felizes todas as pessoas da terra. Algumas se enquadram, outras não e outras ainda passam a vida tentando se adequar a algo que não as satisfaz. Há também quem busque sustentar a pose da suposta felicidade, mas certamente acumula dívidas consigo mesmo, pois permanecem fieis ao modelo enquanto traem a própria essência.

Pessoas satisfeitas afetivamente  e consideradas exitosas em suas vidas amorosas, talvez  tenham sido capazes de se dissociar dessa imagem pré-pronta da família “feliz” e reprogramar um novo  conceito de relacionamento, mais próximo daquilo que realmente são.

Morar em casas separadas, por exemplo, e construir uma família com pai e mãe em  espaços distintos  têm sido uma forma que muitos casais encontraram para preservar o relacionamento das mazelas causadas pela rotina. Essa construção marital escandalizou o mundo na década de 50 e ficou famosa pelo nome de casamento sartreano, pois entre dois excêntricos intelectuais franceses, o filósofo Sartre e a escritora Simone de Beouvoir. Foram felizes por longos anos e talvez não fossem o par de amantes que inspirou gerações se tivessem dividido o mesmo vaso sanitário anos a fio. Foram felizes porque escolheram um modo de viver que combinasse com suas necessidades e anseios.  Foram felizes porque descobriram suas necessidades e as aceitaram, dispensando modelos pré-construídos. Trataram de saber o que os faria intimamente felizes e o realizaram.

Eu e meu marido moramos por vários anos em cidades diferentes e desconsiderando as dificuldades operacionais, posso garantir que o ganho de intimidade do casal só fez aumentar com a distância. Na verdade não é a distância que amplia a cumplicidade, é a liberdade que faz isso. A minha personalidade precisa de respiro e oportunizei-me entender e aceitar minhas características naturais e assim encontrar um partner que não se sentisse agredido com a necessidade frequente que tenho de desfrutar de minha única companhia. Ele entende que isso não é desamor e também aprendeu a desfrutar-se.

Viver agarrado a um modelo de relacionamento impede a construção do modelo próprio isso parece ser o grande paradigma moderno,  que distancia pessoas de uma realização amorosa. Pois quando a essência do indivíduo não se encaixa nesse modelo pronto, surge a sensação de inadequação, tão comum nos corações de quem está só! É o hiato entre o padrão experimentado na família de origem, que torna-se o único possível, e as reais necessidades afetivas e íntimas do indivíduo.  Isso pode ser a causa de muito sofrimento.

Não importa o que casamento é, importa o que queremos que o nosso seja. E para saber como queremos que o casamento seja, precisamos realmente saber quem somos.

Beijos

Dani Conte
Dani Conte
Escreve sobre moda, beleza e tendências, mas também dá seus pitacos em outros assuntos. Revisa demonicamente todos os conteúdos do blog.

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