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Dia desses precisei fazer hora antes de uma reunião e me acomodei na única mesa vaga de um conhecido café aqui da cidade. Enquanto eu bebia meu espresso foi inevitável escutar a conversa de duas moças na mesa ao lado. Uma delas relatava o que me pareceu ser o primeiro encontro com um homem. Ela enumerou várias atitudes do cara em tom de surpresa e animação: “ele mandou mensagem de manhã para saber se eu tinha planos e me convidar para jantar, ele foi me buscar em casa e desceu do carro para me cumprimentar, ele abriu a porta do carro, ele perguntou se o ar estava muito gelado e se eu queria que ele desligasse, ele perguntou o que eu queria beber, ele perguntou se eu já estava pronta para fazer o pedido antes de chamar o garçom…” Sobre a conta? Eu terminei meu espresso antes de a moça chegar nessa parte (mas nem por isso vou deixar de falar sobre ela).

Foi inevitável sair de lá me perguntando com que tipo de pessoa a moça do café era acostumada a sair para ter ficado tão impressionada com coisas que a minha mãe definiria como atitudes de gente “bem criada”(*). Nada do que ela comentou – e que eu enumerei no parágrafo anterior – é conduta reservada exclusivamente a homens que querem sair com mulheres. É respeitoso e demonstra interesse real na companhia da de uma pessoa, propor uma programação com certa antecedência. Outro dia uma amiga me disse isso na cara dura, por conta do convite quase de última hora para um happy hour: “se tivesse me convidado antes eu iria, mas agora já fiz planos”. Certa ela! Descer do carro para cumprimentar alguém em um encontro só é dispensável entre íntimos. Bancar o taxista ou aderir ao estilo “entra aí gatinha” é, no mínimo, cafona! Perguntar se o ar está muito gelado é uma coisa que eu faço com frequência sempre que dou carona para alguém, principalmente para as minhas sobrinhas de 7 e 4 anos; perguntar o que a outra pessoa quer beber também é um praxe entre os bem “criados”, afinal, em uma mesa de restaurante onde se vai compartilhar da companhia, normalmente compartilha-se a bebida. Perguntar se a outra pessoa está pronta para fazer o pedido também é o mínimo (né?), afinal, não é fila do McDonalds…

O mundo está mal educado e mal criado, e algumas noções de cordialidade se perderam. Gentilezas oferecidas por seres do sexo masculino a seres do sexo feminino de repente começaram a ser rotuladas indiscriminadamente de machismo. Diante disso, alguns machistas mal educados (uma redundância) decidem polemizar com anti-gentilezas do tipo: “não querem direitos iguais? Pois então que paguem a conta!”. Neste cenário o bom senso não tem vez. Daí vem a moça do café que se sente (quase que) na obrigação de explicar para a amiga que as gentilezas do rapaz eram genuínas – como quem pede autorização para se encantar com o cavalheirismo do moço.

Acontece que o homem gentil e cavalheiro ainda existe, sim! Só que ele nem sempre é homem e ele nem sempre dedicará sua gentileza e seu cavalheirismo a uma mulher. A gentileza e o cavalheirismo aos quais eu me refiro aqui são exclusivos de gente bem criada(*), que sabe cumprimentar olhando nos olhos e que não os utiliza como ferramentas de sedução. Estamos com medo de ver certas coisas com naturalidade. Estamos treinados para pensar que por trás de uma gentileza existe uma segunda intenção. Estamos engessados em um modelo antiquado de pensar o feminismo. Continuar assim é coisa de quem não lê e tem preguiça mental de acompanhar a evolução social e intelectual dos movimentos. E enquanto nos mantemos preguiçosos, há espertinhos dissimulados bancando os cavalheiros e fazendo a festa com os sentimentos de moças como a moça do café. E, por tabela, desmoralizando os cavalheiros legítimos.

Parte do problema tem explicação na disseminação de uma ideia distorcida de feminismo. Pensar que “direitos iguais” significa dividir a conta é raso demais, para não dizer burro. Direitos iguais é, isso sim, poder aceitar a gentileza pura e verdadeira do cara que faz questão de pagar a conta sem se sentir submetida a ele e sabendo que, se um dia quiser e puder pagar uma conta, ele vai aceitar sem se ofender.

Foi-se o tempo em que o homem detinha a melhor condição econômica em 100% dos casais e precisamos saber lidar com essa nova realidade porque ela se reflete nas relações. Saber aceitar a gentileza de uma mulher e saber oferecer uma gentileza sem se sentir, respectivamente, na obrigação ou no direito de nada é sinal de evolução e de inteligência. Raramente os casais têm condições econômicas equivalentes e insistir na divisão equalitária de contas não tem nada a ver com equilíbrio. Saber que “cada um dá o que tem” é, isso sim, sinônimo de equilíbrio e pode levar a uma construção.

Eu conheço homens que não admitem dividir a conta pelo simples fato de que se sentem genuinamente honrados em desfrutar da companhia de uma mulher. Esses mesmos homens, não por acaso, sabem receber uma gentileza oferecida por uma mulher. Por outro lado eu também conheço homens que se dizem admiradores das mulheres e apoiadores do feminismo, mas que pagam as contas esperando poderem se comportar – e se comportando – como canalhas sem serem recriminados por isso.

Igualdade de direitos – nos relacionamentos (que é o meu foco aqui) – nada mais é do que poder reconhecer um agrado como um agrado e não como um pagamento antecipado por uma submissão que está por vir.

O problema está nessa confusão gerada pela não clareza das pessoas nas intenções e, é claro, na falta de informação e no comodismo. Se saber importante e digna de respeito é fundamental para que a mulheres parem de fingir que não vêem os comportamentos machistas que aparecem nos detalhes. É fácil se opor contra o estupro, contra a subserviência ou contra a desigualdade salarial. É impossível não se chocar com a matéria da jornalista teresinense (**) que esfrega na cara de quem ainda nega a realidade violenta das ruas.

O fato é que o machismo não está só nas condutas impactantes. O machismo também mora nos detalhes, e esse é o título de um post do Think Olga cuja leitura eu super recomendo e que ouso complementar aqui, citando mais exemplos…

O machismo está no relato daquela guria que estava apavorada porque uma amiga ficou com um cara numa festa e no final da noite, por uma sorte, descobriu que ele era um criminoso. Uma amiga recebeu o tal áudio e nele, a guria, gaúcha, encerra o relato dizendo: “Imagina, gurias! ele ia matar ela! Uma guria tipo nós, que tava numa balada…” Quer dizer que se fosse com a preta pobre do bairro, como acontece diariamente, tudo bem? Mulheres são mulheres e todas merecem respeito – porque a grande verdade é que TODAS são como “nós”!

O machismo está no comportamento das senhoras que dizem para as amigas não levarem os maridos no Circo Tihany porque as acrobatas são muito bonitas! Gente, por favor! O que pode acontecer além de uma ereção na platéia? E se acontecer alguma coisa além disso é porque o tal marido não vale um real e mandar ele embora junto com o circo será ótimo negócio!

O machismo está na mensagem que eu recebi na semana passada por conta de uma foto que é resultado de um projeto lindo e recheado de conteúdo, onde eu estou representando Marlene Dietrich e aparece a minha perna. A mensagem, enviada por uma pessoa que me foi apresentada há mais de um ano e com quem eu nunca troquei mais de duas palavras fez eu me sentir um bife, mas infelizmente seria entendida como um elogio por muitas gurias…

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O machismo está no cara dissimulado que, disfarçado de banana, frequenta a casa da guria durante meses, troca livros e usa a conta de aplicativos dela para debater filmes, mas que não oferece exclusividade a ela e só “lembra” de “avisá-la” disso quando se sente confrontado.

O machismo está nas manchetes que dizem que a babá foi o pivô da separação de Gisele Bündchen e Tom Brady, e de Jennifer Garner e Ben Affleck. Nããã000!!!! Não foi a babá!!! Aliás, a melhor manchete que eu vi sobre o assunto foi algo mais ou menos assim: “BEN AFFLECK É O PIVÔ DA SEPARAÇÃO DE BEN AFFLECK E JENNIFER GARNER”. Óbvio!!!! Mas essa manchete sarcástica infelizmente não se espalhou tanto quanto as piadas sugerindo que “se a Gisele, que é a Gisele, é corna, imagina você” ou imagens como a que apareceu na minha timeline (e que me entristeceu). biscate

Tá bem, sabemos que tem gente mal intencionada no mundo, mas vamos combinar que é fisiologicamente impossível forçar um homem a manter relações sexuais com uma mulher. Condenar as “biscates” é justificar o comportamento machista de que o homem pode tudo e de que a culpa é da babá ou da acrobata do circo! E daí as mulheres travam uma guerra machista umas com as outras enquanto os bonitões continuam suas canalhices justificadas, colocando na berlinda os desejos de moças iguais à moça do café e dos rapazes bacanas que querem levá-las para jantar. Simone De Beauvoir define: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”

É certo que no fim das contas o tempo vai dizer se o cara era bem criado(*) e foi autêntico ao ser gentil com a moça do café (e com o garçom, o frentista, a vizinha…) ou se ele é interesseiro e estava apenas representando o papel de cara “fofo”. E também é certo que cada vez mais mulheres estão espertas e cientes do respeito que merecem.

Mas piadas ao redor da tal babá e os comentários “biscatefóbicos” mostram que, em matéria de igualdade, ainda temos um longo caminho pela frente… Como bem disse um amigo querido: “O velho que tem grana e fica com a novinha que tem corpão é tão interesseiro quanto ela (isso se não for mais!). O que acontece é que a novinha passa por biscate destruidora de lares, e o velho… bem… não se sabe… ninguém nunca vai julgar o velho!”

Me sinto meio sem esperanças mas, assim como a moça do café, na luta!

Beijos!

 

(*) Eu chamo de “bem criada” a pessoa que foi ensinada a respeitar e tratar com consideração todas as outras pessoas. Não usei o termo “bem educado” porque não quero confundir com educação formal. É que nem sempre a pessoa que teve acesso à educação formal tem empatia e noções de respeito e consideração no trato com os outros.

(**) A jornalista Sávia Barreto andou durante duas horas em Teresina registrando, com uma câmera escondida, os assédios. A experiência foi inspirada em outra semelhante, feita em Nova Iorque e que você pode ver AQUI.

Dani Conte
Dani Conte
Escreve sobre moda, beleza e tendências, mas também dá seus pitacos em outros assuntos. Revisa demonicamente todos os conteúdos do blog.

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