A MACHADADA DE RONALDO FRAGA

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O tema da quadragésima segunda edição do São Paulo Fashion Week trouxe o prefixo TRANS no seu sentido mais amplo, o de transcender, transformar, transpor, transgredir… Trans no sentido de ir além, aproveitando carona nas mudanças, nas novas maneiras de fazer, de ver e de criar…

As semanas de moda, além de apresentar novidades, têm – ou deveriam ter – o propósito de tirar os nossos olhos do lugar comum. Ainda temos um “como deve ser” pré-estabelecido e temos dificuldade de nos dissociar dele, o que é uma pena porque só as mentes livres são capazes de perceber o todo. O problema é que a moda ainda é engessada…

Dito isso, vamos ao que interessa: a machadada de Ronaldo Fraga nas cabeças que insistem em se manter fechadas.

A coleção foi batizada de “El Dia Que Me Quieras” e, antes de o show começar, Ronaldo fez um pronunciamento sobre o que estava por vir:

“Se aqui estamos falando do corpo como prisão do desejo, a roupa funciona como chave. As transgêneros se recordam do momento libertador em que usaram o primeiro vestido. Vocês verão uma coleção exclusivamente composta pelo mesmo vestido. Ela lembra o feminino de épocas glamourosas da década de 20, 30, 40. Parecem roupas de boneca de papel, como aquelas que encantavam as crianças antigamente. Mas a história não está na roupa, está nas vestes. Nesse universo complexo de gênero, identificação, corpo e desejo, a roupa é um escape. Para todos, aliás, e sempre, a roupa deveria ser um vetor de apropriação do ser. Ela é capaz de libertar como mostra a memória do simples uso da primeira saia, do primeiro salto e do primeiro batom.”

Recado dado, a machadada no crânio veio no casting, formado exclusivamente por transexuais do Brasil todo e de biotipos diferentes. Ao final, vestindo lingeries lindas, as modelos dançaram uma valsa de casal.

Eu fiquei muito emocionada com a coragem do estilista e com o imenso e incansável trabalho que certamente precedeu o desfile, que aconteceu no Theatro São Pedro, em São Paulo. Tem realidades para as quais não podemos mais fechar os olhos, mas insistimos em fazê-lo.

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Em entrevista a uma revista de moda, Ronaldo disse: “Eu falo de amor, de resistência, que é olhar para os invisíveis, para quem o Brasil não vê. Tentar enxergar poesia em terreno árido. É algo que a moda pode fazer e não faz”. Meu ídolo, Constanza Pascolato, disse que nunca havia visto nada tão impressionante na vida, e completou: “E olha que com a minha idade [77 anos] já vi muita coisa impressionante”.

Lindo, lindo. Um show – e um alerta: Quem se permitir invadir pela inspiração e por todas as simbologias do show de Ronaldo Fraga certamente tem espaço garantido neste mundo que está em constante transformação. Quem insistir em tratar o transgênero como invisível, invisível se tornará. Isso não é profecia… é lógica!

Palmas para ele. Eu fiquei realmente emocionada – e chocada com as informações que vieram junto com isso. Quando foi perguntado sobre ter escolhido falar do tema transexuais, ele respondeu que gosta dos “invisíveis”, e disse: “Falamos hoje de um grupo que é dizimado no Brasil. São estatísticas que colocam o país no topo do ranking das nações que mais matam travestis e trans no mundo. Mas ninguém faz nada sobre isso. A média de vida de uma trans no Brasil é de 35 anos. Elas morrem devido à violência, suicídio ou pelo tratamento errado de fundo de quintal com hormônios. E ninguém fala nada. Elas saem das escolas aos 10 anos de idade por conta de bullying e não voltam mais. Não dá mais para ignorar isso.”.

Ou a gente abre a cabeça por bem, ou abre por mal. Eu prefiro a primeira opção, e vocês?

Beijos!

Dani Conte
Dani Conte
Escreve sobre moda, beleza e tendências, mas também dá seus pitacos em outros assuntos. Revisa demonicamente todos os conteúdos do blog.

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